Vasni de Almeida: o romancista dos camponeses que vivem de estrada
Vasni de Almeida nasceu em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Chegou ao Tocantins em 2005 para dar aulas no curso de História da UFT em Araguaína, onde ficou até 2015. Desde então é professor do curso de História, da mesma universidade, em Porto Nacional. Escreve de Palmas.
De onde escreve
A paisagem que aparece em seus livros é a do cerrado rural: as vilas pequenas, os vilarejos, os rios. O Tocantins, ele diz, permite mostrar a realidade do camponês que está sempre em mudança, sempre caminhando para algum lugar.
O começo
Os primeiros textos em que o Tocantins aparece foram acadêmicos, artigos e capítulos de livro sobre missionários protestantes entre populações indígenas, ribeirinhas e camponesas. A ficção veio em 2021, com um romance cuja paisagem é o cerrado goiano e retrata a vida de uma família de migrantes paulistas.
O caminho começou em casa. Vasni tem sete irmãos, muitos deles goianos, e na adolescência ouvia histórias de como a modernização rural foi chegando ao norte de Goiás. Um livro o provocou a escrever nesse cenário: O Mulo, de Darcy Ribeiro.
O ofício
Escreve quando as atividades da universidade deixam. Podem ser dez minutos, podem ser cinco ou seis horas seguidas, desde que o barulho em volta não atrapalhe. O texto quase sempre nasce de uma história que merece ser contada: um fato corriqueiro, um episódio político de pequeno alcance, algo social ou cultural que um dia foi notícia.
O mais difícil, para ele, vem depois de escolhida a história, na hora de montar o enredo e criar os personagens. Vencida essa etapa, é sentar e escrever. O prazer está em dar vida aos personagens e inventar situações em que eles se expressam. “É nessa hora que nosso diálogo com o leitor aparece.”
Leituras
Busca inspiração em José Lins do Rego, Ariano Suassuna, João Guimarães Rosa, Ricardo Guilherme Dicke, José Saramago, Gabriel García Márquez, Fiódor Dostoiévski, Ernest Hemingway e Marcel Proust. Entre os autores do Tocantins, gosta muito dos memorialistas.
O que vem por aí
Vai começar o terceiro romance sobre o mundo do trabalhador do campo, agora em torno de uma greve de trabalhadores rurais em meados dos anos 1980. A quem está começando a escrever no Tocantins, aconselha um olhar atento ao cotidiano das pessoas simples, para vê-las como sujeitos que interpretam o mundo a partir do que vivem. E fecha com uma frase: “Todo escritor deve ser, antes de tudo, um leitor.”
Os livros
Sangue e Silêncio (2026)

“A consciência social necessária para o engajamento numa luta diferente daquelas que já travavam não era uma realidade tão próxima. Muitos eram fiéis aos guerrilheiros por gratidão. Mas gratidão nem sempre resiste aos perigos. Por isso, alguns resistiriam em não os comprometer tão facilmente; outros, porém, iriam preferir proteger suas famílias, seus roçados, seus animais. A vida que haviam construído ali precisava continuar” (p. 221)
Romance. Lançado em outubro de 2026 pela Editora Sinete. Acompanha um movimento social de colonos pobres na Amazônia Ocidental, no fim dos anos 1970. A partir dele, o herói que narra a história volta na memória à infância no semiárido nordestino, à adolescência no Pantanal mato-grossense e à juventude no norte goiano e na Amazônia Oriental. É o livro que o autor indica para começar: mais elaborado, mais perto do romance, com mais protagonismo para os camponeses. Comprar no site da Editora Sinete.
Estradas Desiguais (2021)

Romance. Editora Autografia. Uma família de camponeses do interior paulista é atingida pela modernização da lavoura nos anos 1950. Empobrecidos, mudam de lugar em lugar atrás de trabalho, de uma casa para morar e do sustento: o sudoeste mineiro, o cerrado goiano, o norte do Paraná e, por fim, o Pontal do Paranapanema, no oeste paulista. Algumas leitoras e alguns leitores contaram ao autor que leram o livro chorando. Ver na Amazon.
No Instagram: @vasnidealmeida.
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