Zacarias Martins: o poeta e cronista das histórias de Gurupi
Zacarias Martins nasceu em Belém do Pará. Depois de uma breve passagem por Brasília, chegou a Gurupi, no sul do Tocantins, em 1983, e está lá até hoje. Poeta e jornalista, tem seis livros de poesia, um de crônicas, um infantil e um folheto de cordel.
De onde escreve
Nas poesias, os temas são universais. Nas crônicas, o assunto é regional e quase sempre é Gurupi. Ambientado há décadas na cidade, passou a escrever sobre ela com mais frequência. Na poesia, seguiu com os sonetos românticos, os versos livres e os poemas de humor e de reflexão.
O começo
Começou com trovas, na adolescência, e desde então sabia que escrever faria parte da vida. Não parou mais e foi buscando se aperfeiçoar. Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado, entre outros, o incentivaram a seguir.
Tem uma história curiosa desse tempo. Para ganhar algum dinheiro, escrevia cartas sob encomenda, bem antes do filme Central do Brasil. Em 13 de junho de 1984, o Correio Braziliense dedicou meia página ao escrevinhador de cartas. A reportagem virou estudo de caso num artigo do professor Sérgio Waldeck de Oliveira, da UnB, no livro Semiótica da comunicação e outras ciências, publicado em 1987 pela editora da PUC-SP.
O ofício
Não tem rotina fixa. Deixa a escrita fluir, mas rende mais pela manhã. É um observador do que está em volta: já escreveu poemas a partir de uma frase ou de uma palavra ouvida por acaso, e muitas crônicas depois de presenciar certos acontecimentos.
Escreve por prazer e diz não ver dificuldade no trabalho. O prazer aumenta quando, no meio da criação, surge “como num estalo” uma palavra pouco usada da língua portuguesa, mas que impacta.
Leituras
Entre os livros que o acompanham, cita Labirinto do Caos, de Maria Félix Fontele, tocantinense radicada em Brasília: catorze contos numa linha do tempo que vai até 2050, entre humano e máquina, memória e esquecimento. Cita também Outono de Carne Estranha, de Airton Souza, de Marabá, romance vencedor do Prêmio Sesc 2023 que mergulha nas lamas de Serra Pelada. E A Noiva e Outros Contos Políticos, do jornalista Cléber Toledo, que mostra os bastidores da política.
Gostaria que mais gente lesse poesia. Acha que ela ajuda a humanizar quem anda viciado nas telas e vai perdendo o prazer de folhear um livro e sentir o cheiro do papel.
Na vida literária do Tocantins
É membro-fundador da Academia Tocantinense de Letras, onde ocupa a cadeira 21, que tem como patrono Jacinto Nunes da Silva. Também é membro-fundador da Academia Gurupiense de Letras, em que os patronos são os próprios fundadores, e membro-correspondente da Academia de Letras de Paraíso do Tocantins (ALP) e da Academia de Letras de Araguaína (Acalanto).
Fez parte do primeiro colegiado do Conselho de Cultura do Estado do Tocantins (1989-1990) e foi o primeiro presidente do Conselho de Cultura de Gurupi (1998-1999). É membro-fundador e diretor da seccional tocantinense da Federação Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Turismo (Febtur-TO), criada em dezembro de 2021.
Participou de dezenas de antologias pelo país, entre elas a Brazila Esperanta Parnaso, antologia de poesia brasileira traduzida para o esperanto, publicada em 2007. O nome dele aparece como verbete em dicionários e enciclopédias, como a Enciclopédia de Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho, o Dicionário Biobibliográfico do Tocantins e o Anuário de Poetas e Escritores do Tocantins, organizado por Eliosmar Veloso. As duas participações na Bienal Internacional do Livro de Brasília marcaram o autor pela receptividade do público.
O que vem por aí
Prepara com André Goveia e José Benilson um livro a seis mãos, de título provisório Tocantineia Desvairada, previsto para o primeiro semestre de 2027. A obra vai integrar o projeto de formação de leitores que os três levam às escolas, com rodas de conversa literária em várias cidades.
A quem começa a escrever no Tocantins, aconselha não desistir: as dificuldades vêm, e é preciso encará-las como um desafio. A troca com escritores veteranos, diz, ajuda muito.
Dois poemas
O castigo
Num gesto tresloucado
ousou cometer um verso.
Bem feito:
virou poeta!
Cala-te boca
Tentaram comprar o meu silêncio...
Se minha boca calasse,
falariam por mim os olhos.
Se meus olhos não dissessem nada,
meus atos colocariam a boca no trombone.
Ainda restariam as mãos,
que tentariam um diálogo mudo.
O coração, que bateria mais forte.
O pensamento, que iria mais longe.
A imaginação, que voaria mais alto.
A esperança, que é a última que morre.
E a minha poesia, para falar de amor.
Uma crônica: Cadê a bomba?
Era uma bela manhã de abril de 2004 e as ruas e avenidas do centro de Gurupi estavam bastante movimentadas.
Desde aquela época tinha gente que fazia de tudo para aparecer (e não é que conseguia?). E de uma hora para outra, sem mais nem menos, ou mais mesmo, a nossa querida “Capital da Amizade” começava a se “integrar” de vez ao chamado circuito internacional da fama.
Pois bem, não é que a fervilhante indústria do boato tomou conta da cidade?
O assunto que dominava as rodinhas de amigos nos bares, na rua, nos salões de beleza e até mesmo na casa de “tolerâncias” de Madame Cotinha era de que Gurupi havia sido invadida por terroristas da Al-Quaeda (leia-se Al-Kaida), liderados por Osama Bin Laden.
De repente, a pacata gente de Gurupi foi surpreendida pela notícia de que haviam deixado uma bomba na agência da Caixa Econômica Federal, bem ali na avenida Goiás.
Pânico geral!
A primeira providência tomada foi colocar um anúncio nas rádios de Gurupi, chamando algum corajoso eletricista – um possível especialista em “desligar” bombas –, para tentar resolver o problema. Isso tudo, antes mesmo de se encontrar a tal da bomba.
Minutos depois não tinha mais nenhum eletricista em Gurupi. Misteriosamente, todos haviam se mudado para outras cidades a milhares de quilômetros de distância ou “estavam doentes”.
A Polícia Federal e Comando de Operações Especiais da Polícia Militar foram acionados. O local foi imediatamente evacuado. Várias ruas nas proximidades foram interditadas pelos policiais.
O número de curiosos aumentava. Todos queriam saber detalhes sobre a “operação”. Foi chamada uma equipe de policiais especializados em lidar com artefatos bélicos. Até um pai de santo que passava pelo local foi consultado para opinar sobre tão delicado caso. Afinal, era a primeira vez que Gurupi vivia em clima de ameaça de atentado a bomba.
Um transeunte chegou a perguntar: – “Será que vai sair no Jornal Nacional?”
Os policiais começaram a retirar as pessoas que se encontravam próximas ao local de “perigo” e as levavam para um lugar mais seguro, localizado na Avenida Goiás, esquina com a Rua 4, curiosamente, onde se localiza um posto de combustível.
O tempo ia passando. A procura da tal bomba continuava em todos os cantos da agência bancária e… nada!
Lá pelas tantas, encontraram uma caixa de papelão. À primeira vista parecia uma caixa “suspeita”.
Com muito cuidado e devidamente paramentados, os policiais se prepararam para “desativar” o artefato. Quando finalmente conseguiram abrir a tal caixa, descobriram que dentro dela havia sim, uma bomba, porém, era uma bomba d’água, daquelas usadas em cisternas, da marca Anauger, que havia sido esquecida por um correntista distraído.
Segundo apurou-se mais tarde, esse mesmo correntista ao dar pela falta da bomba, apressou-se em telefonar para o gerente da agência:
– “Senhor gerente, deixei uma bomba aí na agência!”, teria dito o correntista e antes que pudesse se explicar melhor a ligação foi interrompida e isso teria provocado a confusão que se generalizou.
Ao constatar que o caso não passara de um grande equívoco, as pessoas que curiosas a tudo assistiam, ficaram visivelmente indignadas por tudo não ter passado de muito barulho para pouca bomba.
Os livros
A obra em poesia começou cedo: Transas do Coração (1978), O Poeta de Belém (1979), Poetar (1980), O Profeta da Felicidade (1984) e Vox Versus (1986). Depois vieram o sexto livro de poemas, as crônicas, um livro infantil e um cordel.
Pinga-Fogo (2004)

Poesia. Hoje na 2ª edição.
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O eu-lírico passeia do amoroso ao humoroso, com desenvoltura ímpar. Amor e humor constituem presença constante na obra.
Pedro Albeirice da Rocha, doutor em Teoria da Literatura e professor da UFNT, em Araguaína
Histórias da História de Gurupi (2009)

Crônicas sobre as “acontecências” curiosas e engraçadas que o autor presenciou desde que chegou a Gurupi. Saíam toda semana no jornal Cocktail e faziam sucesso, até que ele selecionou os textos e fez o livro. Já está na 5ª edição e foi adotado duas vezes no vestibular da Universidade de Gurupi (UnirG). É o livro que o autor indica para começar, “pelo repertório hilário”.
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As crônicas de Zacarias Martins registram o apelo do cidadão gurupiense situado em determinações que limitam a sua comunicação e o seu reconhecimento pleno. É um livro que permite ao cidadão saber o que acontece na sua cidade, possibilitando que ele desenvolva uma visão crítica sobre o meio em que vive.
Maria Wellitania de Oliveira Cabral, professora do curso de Letras da UnirG
As Aventuras de Gurupito (2022)

Livro infantil. O personagem principal é o próprio autor quando criança, só que vivendo em Gurupi, e não em Belém.
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O Pequi é Nosso (2026)

Literatura de cordel.
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O folheto de cordel “O Pequi É Nosso”, do poeta e jornalista Zacarias Martins, é uma celebração bem-humorada e astuta da identidade cultural e da culinária do Tocantins. Ao utilizar as rimas e a métrica tradicionais da literatura de cordel, o autor transforma o pequi — fruto símbolo do Cerrado — em uma metáfora de pertencimento, orgulho e resistência regional. A obra capta com maestria o cotidiano e os costumes locais, tocando na famosa e divertida “disputa” com estados vizinhos pela soberania do fruto. É um texto leve, de linguagem acessível e carregado de tocantinidade, que diverte o leitor ao mesmo tempo em que preserva e valoriza o patrimônio imaterial da região.
Eliosmar Veloso, escritor e editor
No Instagram: @zacamartinsto. Blog: zacamartins.wordpress.com.
Este perfil faz parte das Vozes do Tocantins, o espaço da Latitude Literária para quem escreve a partir do estado.
