Ariel Elias do Nascimento: o que o luto ensinou a escrever
Foto: Marcelo Les / DPE-TO – Divulgação
É de madrugada que Ariel Elias do Nascimento escreve. As primeiras ideias chegam em blocos de texto, anotados no celular, e só depois vão para o computador, onde a página cresce devagar. “O cursor piscando na tela acaba se tornando o coração da folha”, diz.
De Campinas a Palmas
Ariel nasceu em Campinas, no interior de São Paulo, na década de 1970. Foi lá que estudou, se formou, começou a dar aulas e formou família.
Em 2010, uma oportunidade de trabalho trouxe todos para o Tocantins. “Foi uma mudança bruta: mala, cuia e cachorro”, lembra. A família inteira sentiu o impacto da troca. Hoje ele vive em Palmas.
Um começo marcado pela perda
A escrita sempre esteve por perto, mesmo sem ser lapidada. O contato com a literatura vem da infância, e as paixões dos primeiros anos, algumas delas arrebatadoras, viraram cartas e poemas. Foram essas as suas primeiras produções.
O ofício, porém, só entrou de vez na vida de Ariel em 2026, depois de um longo período de luto pela perda da esposa. O primeiro livro, Manual do Adeus, nasceu dessa perda e reúne crônicas sobre amor, despedida e ausência.
Ele descreve o livro como as últimas palavras não ditas, finalmente organizadas em texto. “Foi o momento em que consegui colocar esses sentimentos no papel com lucidez”, conta. Nas crônicas, a dor e a trama se entrelaçam em sentimentos que ele chama de robustos, finitos e sinceros.
O lugar antes da história
Os livros de Ariel começam pelo cenário. Antes dos personagens e antes da trama vem o lugar, descrito com tanto cuidado que o leitor precisa senti-lo. “Carrego muito peso nessa parte”, admite. Só depois as pessoas aparecem, e a história começa a se desenrolar quase sozinha.
O mais difícil, para ele, é terminar. “Colocar o ponto final é difícil.” O prazer vem depois, na editoração: com o texto pronto, Ariel cuida da forma do livro e o constrói “tal qual ele merece, conforme a história que está dentro dele”. Ele mesmo brinca que parece masoquismo.
O rio que não sai do horizonte
Nenhum dos livros publicados até agora se passa no Tocantins. Mesmo assim, uma paisagem insiste em voltar, serena e constante: as águas do Rio Tocantins, “com seus mistérios, sonhos e angústias, que a água carrega, mas não apaga”.
Para Ariel, viver entre o rio de um lado e a serra do outro muda a forma de olhar. São paisagens que nem sempre entram na página, mas que afiam a percepção de quem escreve, seja cronista, poeta ou romancista.
É esse o conselho que ele deixa para quem começa a escrever no estado: prestar atenção à natureza. Ela amplia os sentidos e abre caminho para uma escrita feita no Tocantins, e também sobre ele.
Seis livros em um ano
2026 foi um ano de produção intensa: seis livros, alguns ligados entre si. Manual do Adeus abriu a sequência. Depois vieram O Avesso do Instante e O Inventário das Sombras, da coleção O Que Escapa: crônicas escritas juntas e depois organizadas em dois livros separados, mas complementares, num diálogo íntimo sobre o eu e sobre o espaço.
Os três últimos são novelas ambientadas em Porto Alegre, às margens do Guaíba. A cidade e o rio lembram Palmas e o Tocantins, e a escolha talvez seja um jeito de escrever sobre onde vive sem estar ali, margeando sentimentos e cheiros. “Mas, sobretudo, foi a vontade de viver e escrever outra cultura, outros movimentos, outros tempos”, diz. A Pele do Rascunho trata da relação íntima entre um escritor, sua musa e seu rascunho. Quarto 7 acompanha um escrevente esmagado pelo peso da burocracia estatal, em busca da verdade. E O Nome que Faltava: a história que Irene guardou é a continuação natural de A Pele do Rascunho.
Por onde começar? Ariel lembra que os livros são muito diferentes entre si e sugere dois caminhos. Para quem busca reflexões sobre a perda, Manual do Adeus. Para quem prefere intriga e romance, A Pele do Rascunho. Todos estão na Amazon, com leitura gratuita no Kindle Unlimited.
Leituras e o que vem
Alguns autores nunca saem de perto: Machado de Assis, Clarice Lispector e Tolstói.
E o próximo livro já existe, por enquanto em rascunho. Depois das crônicas e das novelas, Ariel agora escreve poesia.
Enquanto isso, o Manual do Adeus segue encontrando leitores. Na página do livro na Amazon, um deles fala em “palavras sábias sobre perda, luto e vida que segue, sem a pretensão da autoajuda”. Outro lembra os trechos que pedem para ser relidos, “não por falta de compreensão, mas porque são trechos que nos abraçam”.
Este perfil faz parte das Vozes do Tocantins, o espaço da Latitude Literária para quem escreve a partir do estado. Os livros de Ariel estão no catálogo completo.
