Como ler Carolina Maria de Jesus: a fome escrita em cadernos achados no lixo
Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914 em Sacramento, Minas Gerais, neta de escravizados. Estudou só dois anos de escola, o bastante para se apaixonar pela leitura.
Mudou-se para São Paulo e, nos anos 1950, vivia na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, criando três filhos sozinha com o que ganhava catando papel. À noite, escrevia num caderno achado no lixo tudo o que via: a fome, os vizinhos, a política, os próprios sonhos.
Em 1958, o jornalista Audálio Dantas conheceu Carolina e seus cadernos. Dois anos depois, Quarto de Despejo virou um fenômeno de vendas, traduzido para mais de dez línguas.
Por onde começar: Quarto de Despejo.
Contexto histórico e cultural
O Brasil dos anos 1950 vivia o otimismo do desenvolvimento, com novas indústrias e a construção de Brasília. As favelas que cresciam nas grandes cidades não entravam nessa propaganda.
Carolina mostrou esse outro lado com a autoridade de quem estava dentro. Chamava a favela de “quarto de despejo” da cidade, o lugar onde se joga o que não se quer ver.
Depois do sucesso, foi esquecida pelo mercado e morreu pobre, em 1977. Nas últimas décadas, foi redescoberta como uma das vozes mais importantes da literatura brasileira e uma referência para escritoras negras e periféricas.
Principais obras
- Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960). O diário da vida no Canindé entre 1955 e 1960: a fome, os filhos, a vizinhança e a escrita como resistência.
- Casa de Alvenaria (1961). O diário da vida depois do sucesso, fora da favela, e da descoberta de que a fama não muda tudo.
- Pedaços da Fome (1963). Romance de Carolina, pouco conhecido, publicado com recursos próprios.
- Diário de Bitita (1986). Memórias da infância em Sacramento, publicadas depois da morte da autora.
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